A solidão das matas

     Enquanto o mundo sofria as consequências da Primeira Guerra Mundial, nos confins do Estado de São Paulo surgiam os desbravadores do sertão agreste. Estes sertanistas aqui chegaram vindos de Rio Preto e região, nos alvores do século 20, trazendo a família. As viagens eram longas em carro de boi (o único meio de ‘transporte coletivo’).

     Se as dificuldades eram infindas, o brio e a esperança que moviam aqueles bravos eram ainda maiores. Agigantados era os seus sonhos, e nem mesmo o ermo destas plagas, a falta de recursos, a solidão das matas, as distâncias trotadas ao lombo de burros não arrefeceram a vontade de plantar, no sertão, novos pontos e colonização no Noroeste Paulista.

     Consta na historiografia regional que a área das  Águas Paradas tinha bacia hidrográfica significativa, o que favorecia o povoamento. O solo fértil era adequado ao cultivo de café (de boa bebida) e à formação de pastagens.

     Os desbravadores eram pessoas simples e humildes, praticavam a religião católica e rezavam terços e novenas com regularidade, fazendo desta prática uma atividade que unia os moradores com certa harmonia e compromisso. Todo primeiro domingo do mês, rezavam e faziam leilões com prendas dos próprios moradores. O dinheiro arrecadado era destinado à construção de uma igreja de tijolos, como aconteceu de fato.

     Um morador antigo, João Carvalho Figueiredo, conta que no povoado se produzia tudo o que de comer, menos o sal e farinha de trigo, que eram comprados em Jaboticabal e são José do Rio Preto, e que ficavam à boa distância. Para sustento, plantavam arroz, feijão, milho, mandioca, hortaliças e frutas. Além da cana, mamona e algodão para produzir açúcar e óleo para o lampião.

    Quando aqui chegaram, os valentes pioneiros encontraram, para espanto de todos, um personagem bastante peculiar, que vivia com numerosa família: mulher, filhos, cunhados, genros e netos. Chamava-se Manoel Francisco da Silva.

     Nossa História, a história de Américo de Campo, começa com ele, o Mané Chico. Isso vale um capítulo, como o leitor verá. Afinal, foi com ele que tudo começou.

     O livro “Subsídios para a história de Tanabi”, de Sebastião Almeida de Oliveira, fala desta leva de pioneiros da mesma região do Estado, com igual processo de povoamento (lembrando a proximidade territorial de Américo de Campos e Tanabi): “No início do século passado, toda a região oeste do Estado estava praticamente inexplorada, figurando nos mapas como ‘terrenos desconhecidos e habitados por indígenas’. O povoamento se processou via Casa Branca, Araraquara e Jaboticabal para estender-se em Rio Preto e circunvizinhança.”

(…) A extrema mobilidade de nossa gente, o gosto pela aventura e o espírito de bandeirismo contribuíram para a penetração dos pioneiros em nossa região, homens telúricos que ‘se atolaram no massapé etnográfico e sofreram a sedução dissoluta e criadora dos trópicos’, intrépidos sertanistas que repetiram aqui as mesmas heroicas façanhas atribuídas aos bandeirantes do planalto.

(…) Na indisciplina da vida sertaneja vieram, os povoadores, por caminhos naturais, picadas abertas a facão, por onde enfiavam seus cargueiros atufados, veredas sinuosas a custo vingadas por carros de boi e foram se instalando à margem dos ribeirões, nas clareiras da floresta impérvia, abrindo as primeiras roças e cultivando o solo agreste.”

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  1. maicon rodrigo

    adorei o texto rico e vivo senti -me dentro dos fatos

  2. edmilson betarelli vieira

    Muito bom,nasci em americo.e nao sabia da historia da fundaçao…abrs

    • Bom Dia Edmilson. É um prazer ter você aqui em nosso Blog, fique a vontade e vale lembrar que se você estiver alguma foto, revista, documentos da época (qualquer coisa), que nós envie para podermos compartilhar com o pessoal. Obrigado, abraço.

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